A poesia é a terapia por escrito.
É um alento quando não vemos perspectivas nesse mundo artificial. Ela nos revela o quão humanos somos e que ser frágil é parte da nossa essência. E isso não pode parecer estranho, porque gente é assim.
A superficialidade chega a parecer soberana, impositiva. Mas aí vem Leminski e diz:
“viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície”.
Daí, voltamos à doença envergonhada. Identificar os sinais em meio a superfície não é tarefa fácil. São tantos anteparos e filtros que decifrar sentimentos se transforma num exercício de suposições, num jogo de adivinhação.
Pra subverter, ainda tem poetas como Manuel de Barros, que escancara as insignificâncias e derrama sem qualquer pretensão versos assim:
“Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia”
E completa:
“Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia”.
Sentir é humano. Da mesma forma que a alegria é aceita, a tristeza é um sentimento. O que é parte do ser não pode parecer estranho a quem padece da mesma poesia que é viver.
Anderson Pires




