“Há despedidas que se dão no tempo. Outras, no espírito. A de Lula e Pepe Mujica foi das que se inscrevem na carne da história — mas também nas dobras mais íntimas da alma.
Lula não alterou uma agenda para “faturar” com a morte de um velho amigo, como já insinuam — com a previsibilidade de sempre — os de sempre. Estava em viagem quando soube do fim de Pepe, e a família do ex-presidente uruguaio — num gesto de rara grandeza e delicado afeto — decidiu adiar o enterro, para que o brasileiro pudesse se despedir do corpo daquele que, para ele, fora irmão de jornada, companheiro de trincheiras, espelho de coragem.
Mas a verdadeira despedida — a despedida da alma, aquela que toca o que há de mais humano entre dois homens que se amaram como camaradas e se respeitaram como poucos — essa já se dera meses antes. Em dezembro, Lula foi ao encontro de Mujica ainda em vida, em sua casa-sítio, para vê-lo, tocá-lo, homenageá-lo.
Levou-lhe a Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais alta honraria do Brasil — não como gesto protocolar, mas como uma espécie de sacramento civil: o reconhecimento de um homem bom por outro.
Foi um encontro de choros contidos e incontidos, de abraços longos, de beijos na fronte e nos olhos, de lágrimas.
Muitas lágrimas. Ali, ambos sabiam que era o fim. E, no fim, não havia Estado, nem palanque, tampouco cálculo. Apenas a despedida de dois velhos militantes, marcados pelo cárcere, pela pobreza, pelas derrotas — e pelas raras, árduas vitórias.
A despedida de dois homens que lutaram — e ainda lutam, em seus corpos feridos e em suas palavras teimosas — pela ideia de um mundo menos cruel.
Qualquer tentativa de deformar esse gesto, de enxergar cálculo onde houve ternura, é mais que um equívoco: é vileza. Interpretar a ida de Lula ao velório de Mujica como artimanha política é ato de quem perdeu o senso da dignidade — e do silêncio que a morte exige.
Há momentos em que o respeito deve calar a suspeita — e este é um deles.
Entre tantas farsas e falsos gestos que habitam a cena pública, a despedida de Lula e Mujica foi real. Real como os olhos marejados, como as mãos entrelaçadas, como a dor que se diz sem palavras.
E, por isso mesmo, é um testemunho raro: ainda há espaço para a ternura na política.
Felizmente, ainda há homens que sabem se despedir com amor — e ternura.”
Edward Magro




