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Meritocracia à brasileira/por Osvaldo Ventura

ESTRUTURA DA MERITOCRACIA

Em nosso país existe uma palavra sob a qual se abrigam pessoas de famílias abastadas e que levam vantagem sobre a maioria da população brasileira, na disputa por uma função nos altos escalões da República: meritocracia. As classes dominantes brasileiras, desde tempos imemoriais, usam e abusam do vocábulo para justificar as conquistas de seus membros, destacando-lhes os méritos que os levaram à vitória.

É óbvio que este mérito é verdadeiro, porém existente apenas entre os bem-aventurados de sempre, os nascidos em berço de ouro, deixando de fora os menos favorecidos pelo destino, sem qualquer condição de uma disputa ombro a ombro. Assim sendo, numa reflexão mais acurada, chega-se à justa percepção que a meritocracia é um biombo por trás do qual se esconde uma verdadeira “reserva de mercado”, onde o racismo estrutural revela, também, sua abominável presença, sem qualquer pudo.

Não se trata aqui de negar o merecimento de quem o tem. Questiona-se como o cidadão brasileiro, nascido na “barriga da miséria” (vide Chico Buarque), morando em cubículos, alimentando-se precariamente, convivendo num ambiente familiar de escasso nível sociocultural, educação pública vergonhosa, poderá se tornar meritório para competir com aqueloutro que veio ao mundo no seio de uma família detentora de excepcional situação econômico-financeira.

Certamente, o mérito depende muito do desejo de cada um, dos exaustivos esforços e da capacidade de realização do indivíduo. Mas, não deixa de ser uma vantagem insuperável para quem já está municiado de “régua e compasso”. Por isto, a meritocracia “à brasileira” é como uma corrida de cem metros, na qual o corredor mais preparado fisicamente sai na frente com cinquenta metros de distância, levando proveito sobre os demais.

Aos nossos olhos, esta condição foi naturalizada de tal maneira, que quando alguém emerge da periferia depois de enormes dificuldades ou por força do acaso, por sorte ou mesmo pelo determinismo biológico de um talento nato, torna-se motivo de admiração e elogios e transforma-se em notícias de destaque em todas as mídias, como um fenômeno inusitado.

     De todo modo, quem em nossos dias, como exceção da regra, consegue romper o “Circulo de Fogo” desta competição desigual, não deixa de merecer, verdadeiramente, os mais efusivos encômios de seus compatriotas.

 Não se deseja que todos sejam iguais, afinal, a própria diversidade humana nos desiguala. Contudo, é imperativo que se lute em busca de igual oportunidade para todos, sem distinção.  Daí em diante, prevalecerá o dito popular: “Quem tiver a unha maior, sobe na parede”.

 Osvaldo Ventura, advogado, escritor e membro da Academia Feirense de Letras

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